Foi o ano em que Odoacro depôs Rómulo Augústulo, o último imperador romano do Ocidente residente em Itália. Rómulo era ainda adolescente, tinha chegado ao trono em 475 por iniciativa do pai, Oreste, e não dispunha de uma autoridade comparável à dos imperadores de séculos anteriores. A Treccani recorda que o poder efectivo permaneceu nas mãos de Oreste e que, após a derrota deste, Rómulo foi enviado para a Campânia com uma pensão. Com ele terminou a dignidade imperial ocidental. [1]
Foi, portanto, um fim real. Mudou a forma de governo da Itália e encerrou uma longa sequência de imperadores do Ocidente. A cena, contudo, esteve longe da grande catástrofe imaginada pela memória popular: não houve um palácio imperial em chamas, nem uma multidão a assistir à destruição de Roma, nem um gesto teatral transmitido pelas fontes com segurança. A função imperial vinha perdendo substância política, enquanto os exércitos, as famílias aristocráticas e os comandantes militares passavam a decidir cada vez mais as sucessões.
A própria data de 476 é uma convenção historiográfica. Num capítulo publicado pela Cambridge University Press, Guy Middleton observa que a escolha de uma data para o «colapso» depende daquilo que se decide medir: a perda de territórios, a eficácia do Estado, a continuidade das instituições, a autoridade do imperador ou as condições materiais da população. [2] Por isso, o fim do Império Romano do Ocidente deve ser entendido como uma sequência de rupturas, derrotas e adaptações. O ano de 476 foi um limiar político muito visível; não desligou o mundo romano de um dia para o outro.
Um império já fragilizado
O império que se desagregou em 476 já não era o império de Augusto. Tinha sido transformado várias vezes. Logo no século III, Roma atravessara crises militares, usurpações, pressões nas fronteiras, inflação e dificuldades fiscais. As reformas de Diocleciano e de Constantino reforçaram a capacidade do Estado para mobilizar homens e recursos, mas também aumentaram o peso da burocracia, da fiscalidade e da máquina militar. Governar territórios tão extensos custava muito mais do que no passado.
Na Antiguidade tardia, o império precisava de receitas regulares para pagar soldados, conservar fortificações, remunerar funcionários, abastecer os exércitos e manter as redes de comunicação. Cada província perdida reduzia os recursos disponíveis; cada guerra civil obrigava a deslocar tropas e a conceder recompensas políticas; cada comandante demasiado autónomo podia abrir uma nova luta pelo poder. Segundo a Treccani, a desagregação do Ocidente foi o resultado de um processo prolongado que, desde o século III, favorecera uma regionalização crescente dos territórios imperiais. [3]
Não é preciso, por isso, imaginar uma agonia contínua e igual em toda a parte. O Império tardio conservava meios consideráveis: administrava cidades, cobrava impostos, mantinha vias terrestres e marítimas, cunhava moeda, construía edifícios e apoiava-se numa cultura jurídica complexa. A crise atingia as regiões de modos diferentes. O Oriente dispunha de grandes centros urbanos, de uma base fiscal mais sólida e de províncias que continuavam economicamente produtivas. O Ocidente tinha menos margem de manobra. À medida que a Gália, a Hispânia, a Britânia e a África se afastavam do controlo directo da autoridade imperial, a Itália ficava no centro de um Estado mais pobre e cada vez mais dependente de alianças militares instáveis.
A expressão «decadência de Roma» pode tornar tudo indistinto. No século V, vêem-se antes mecanismos muito concretos: territórios que deixam de enviar tributos, exércitos que já não podem ser pagos com regularidade, comandantes com forças próprias, cortes ocupadas a defender o poder interno enquanto as províncias mudam de senhor. Essas fissuras ajudam a explicar por que motivo o último imperador do Ocidente pôde ser deposto sem provocar uma resposta militar capaz de restaurar a antiga ordem.
Duas cortes romanas
A divisão entre Oriente e Ocidente cria outro equívoco. Depois da morte de Teodósio I, em 17 de Janeiro de 395, o governo do império ficou de forma estável nas mãos de duas cortes: Arcádio reinou no Oriente e Honório no Ocidente. A partir daí, as duas partes seguiram trajectórias políticas cada vez mais distintas. Não se tinham tornado, porém, duas civilizações estranhas entre si, nem dois mundos separados de repente como Estados modernos.
Constantinopla continuava a ser uma capital romana. Os seus imperadores falavam da res publica, conservavam o direito romano, governavam províncias romanas e reclamavam autoridade sobre o conjunto do império. Também o Ocidente continuava a olhar para Oriente em busca de alianças, legitimidade, dinheiro e apoio militar. A Treccani recorda que, depois de 476, o título imperial continuou no Oriente e o imperador bizantino era considerado o único imperador romano legítimo. [4]
A divisão tinha, ainda assim, consequências práticas. As duas cortes podiam defender interesses diferentes, escolher prioridades distintas e intervir a ritmos diversos. Quando a Itália e as províncias ocidentais entraram em dificuldade, Constantinopla nem sempre podia — ou queria — financiar campanhas dispendiosas. O Ocidente necessitava de ajuda, mas o Oriente tinha de defender os Balcãs, a fronteira do Danúbio, as relações com a Pérsia e o seu próprio equilíbrio interno.
Em 476, a ideia romana de império não desapareceu. Desapareceu o imperador ocidental, enquanto Zenão continuava a reinar em Constantinopla como imperador romano. Havia ainda outra figura que complicava o quadro: Júlio Nepos, deposto por Oreste em 475, conservava o título imperial na Dalmácia e era reconhecido pela corte oriental. Manteve actividade política até à morte, em 480. [5] A data convencional de 476 continua a ser útil, mas não encerra todas as questões dinásticas nem elimina a continuidade romana oriental, que duraria até 1453.
Guerras e fronteiras
As chamadas invasões bárbaras são muitas vezes apresentadas como uma única vaga de povos vindos de fora para destruir Roma. A imagem simplifica demasiado. Visigodos, Vândalos, Burgúndios, Francos, Hunos, Ostrogodos e outros grupos tinham origens, composições, objectivos e relações com o império muito diferentes. Alguns estavam estabelecidos há muito nas províncias romanas; outros entravam como federados; outros lutavam contra Roma ou por Roma; vários mudaram de posição mais do que uma vez.
A palavra «bárbaro» era uma categoria romana, frequentemente polémica. Designava quem não pertencia à cultura greco-romana, mas não descrevia um bloco étnico único nem um nível uniforme de civilização. No século V, homens de origem germânica podiam comandar tropas imperiais, receber títulos romanos, casar-se no seio das elites e tornar-se protagonistas da política interna. A Treccani observa que muitos dos reinos chamados romano-bárbaros nasceram de relações de foederatio e, pelo menos no início, continuaram a agir como extensões da ordem romana nas províncias ocidentais. [6]
O saque de Roma de 410, levado a cabo pelos Visigodos de Alarico, foi um choque enorme. Durante séculos, Roma parecera inviolável, mesmo depois de perder parte da sua centralidade política. A corte ocidental já se tinha deslocado de Roma para Milão e, depois, para Ravena, cidade mais fácil de defender e mais próxima das vias militares do Adriático. Alarico não destruiu o império de uma só vez: depois de 410, existiam ainda um imperador ocidental, uma corte, uma administração e exércitos romanos. O trauma atingiu a imaginação dos contemporâneos e tornou visível uma fragilidade que, poucas décadas antes, parecia inconcebível. [7]
Em 455, quando os Vândalos entraram em Roma, ficou claro que a cidade já não podia ser defendida como antes. A violência foi real, mas não deve ser transformada no mito oitocentista do «vandalismo» como destruição irracional. Os grupos armados que atravessavam o Mediterrâneo ocidental procuravam terras, recursos, reconhecimento político e acesso às estruturas do poder romano. Faziam parte da crise do império, não eram apenas uma força exterior que agia contra ele.
Roma e a África
Para perceber por que razão o Império Romano do Ocidente já não conseguiu recuperar, convém olhar menos para a cidade de Roma e mais para o Norte de África. As províncias africanas estavam entre as áreas mais produtivas e mais importantes do ponto de vista fiscal. Forneciam trigo à Itália, receitas ao fisco e ligações marítimas essenciais à economia imperial.
Os Vândalos passaram da Hispânia para a África em 429, sob o comando de Genserico. Depois da conquista de Cartago, em 439, fundaram um reino que retirou ao império uma grande parte da África romana. A Treccani recorda que, após Cartago, os Vândalos declararam a sua soberania e a autoridade romana recuperou apenas algumas zonas da Mauritânia e da Numídia. [8] A perda não dizia respeito apenas a uma região distante da Itália: retirava ao Estado ocidental um dos seus principais suportes financeiros.
A Cambridge University Press resume claramente o efeito da conquista: o reino vândalo ameaçava o abastecimento de trigo de Roma e interrompia as receitas fiscais provenientes de uma das províncias mais ricas do império. [9] Num sistema sustentado por impostos e despesa militar, um golpe desses era difícil de absorver. Sem receitas suficientes, tornava-se mais complicado pagar aos soldados, manter fortificações, sustentar a frota, financiar campanhas e conservar a lealdade dos comandantes.
Em 468, o Império do Oriente e o que restava das forças ocidentais lançaram uma grande expedição contra os Vândalos. O fracasso foi desastroso nos planos político e financeiro. A África não voltou para Roma, e os recursos gastos poderiam ter sido usados noutros lugares. As causas do fim do Ocidente continuam a ser debatidas pelos historiadores: Peter Heather dá grande peso às guerras e às pressões migratórias, enquanto Bryan Ward-Perkins insiste nas consequências materiais do colapso, visíveis na redução das trocas, da produção e da qualidade de vida. [10]
As duas leituras podem coexistir. Um império enfraquece quando perde territórios; enfraquece ainda mais quando esses territórios deixam de financiar exércitos e administração. As guerras não foram apenas batalhas nas fronteiras: revelaram um Estado que já não conseguia transformar impostos, trigo e homens em poder político.
O poder das armas
Na segunda metade do século V, os imperadores do Ocidente tinham muitas vezes uma autoridade limitada. Também contavam os generais, as guardas armadas, os chefes das tropas federadas e as alianças pessoais. Aécio, Ricimero, Oreste e outros homens fortes não eram simples funcionários: influenciavam sucessões, guerras, casamentos políticos e distribuição de terras.
Rómulo Augústulo deixa particularmente claro esse esvaziamento da instituição imperial. O pai, Oreste, era um patrício romano e comandante das milícias. Em 475, rebelou-se contra Júlio Nepos, tomou Ravena e fez proclamar imperador o filho adolescente. A Treccani confirma que Rómulo foi elevado ao trono pelo pai e que o poder imperial permaneceu, no essencial, nas mãos de Oreste. [11]
Entretanto, as tropas estacionadas em Itália, compostas em grande medida por soldados de origem não italiana, exigiam uma parte das terras. Oreste recusou. O pedido não deve ser lido apenas como uma pretensão predatória: dizia respeito à forma de recompensar essas tropas e de lhes dar lugar num sistema político que dependia cada vez mais delas. Odoacro foi aclamado pelos rebeldes a 23 de Agosto de 476; Oreste foi morto poucos dias depois, em Placência; Rómulo foi deposto a 4 de Setembro. [12]
Vê-se aqui quão longe o império já estava da estabilidade de séculos anteriores. O jovem imperador não foi vencido numa batalha decisiva contra um inimigo vindo de outro mundo. Foi a vítima final de uma luta interna na Itália tardo-romana, travada por homens que conheciam o exército romano, usavam os seus títulos, reclamavam terras italianas e procuravam uma posição estável dentro de estruturas nascidas do império.
Odoacro, muitas vezes lembrado sob o rótulo de «bárbaro», fora general do exército romano. A Treccani descreve-o como chefe da rebelião que depôs Rómulo e como rex gentium, rei dos povos estabelecidos em Itália. [13] A expressão mostra bem a ambiguidade do novo poder: uma monarquia fundada em grupos armados diferentes, mas activa num país ainda cheio de instituições, práticas e memórias romanas.
Setembro de 476
A cena de 476 foi menos cinematográfica do que muitas vezes se conta. Odoacro não partiu diante da multidão a coroa do último romano, pelo menos não segundo um testemunho histórico fiável. As fontes permitem reconstruir uma tomada do poder: a derrota de Oreste, a ocupação de Ravena, a deposição de Rómulo Augústulo e o seu afastamento para a Campânia.
Odoacro não nomeou um novo imperador do Ocidente. Essa foi a decisão decisiva. As insígnias imperiais foram enviadas a Zenão, imperador do Oriente, e a Itália foi governada sem uma corte imperial autónoma. A decisão tinha um sentido político claro: o Ocidente deixaria de ter um Augusto próprio. Não certificava a desaparição imediata do Estado romano, da sociedade romana ou dos seus instrumentos administrativos.
Em 477, um funcionário podia continuar a redigir documentos em latim, um senador podia discutir impostos e propriedades, um bispo podia invocar normas romanas, um mercador podia usar moedas com símbolos imperiais. A vida quotidiana não foi reescrita do zero. O Senado romano continuou a existir; as cidades permaneceram centros administrativos e religiosos; a Igreja aumentou a sua presença; o direito romano conservou autoridade. Uma parte da aristocracia senatorial colaborou com Odoacro, porque a continuidade administrativa também ajudava a assegurar a ordem e a propriedade.
A Treccani sublinha ainda que Júlio Nepos, reconhecido no Oriente, permaneceu imperador do Ocidente na Dalmácia até 480. Algumas moedas foram cunhadas por Odoacro em seu nome. [14] O detalhe é revelador: a legitimidade romana continuava a ter peso, mesmo numa Itália já sem imperador residente.
Por isso, 476 deve ser mantido como uma data política. A dignidade imperial ocidental deixou de ser ocupada, e quase todas as províncias ocidentais eram já controladas por reinos autónomos ou poderes locais. Dizer que nada aconteceu seria tão enganador como afirmar que Roma desapareceu naquele dia. Houve uma ruptura institucional decisiva dentro de uma transformação muito mais longa.
Depois do imperador
O poder de Odoacro não encerrou a instabilidade italiana. Zenão, preocupado com a autonomia do novo rei, enviou contra ele Teodorico e os Ostrogodos. A guerra começou em 489, passou por batalhas e cercos, e terminou em 493 com a rendição de Ravena e a morte de Odoacro. [15] A Itália entrou então no reino ostrogodo, dirigido por Teodorico.
Teodorico governou uma população em grande parte romana, manteve muitas das estruturas administrativas existentes e colaborou com a aristocracia senatorial. O seu governo não restaurou o império de Augusto, mas procurou fazer coexistir a autoridade gótica, o direito romano, as instituições urbanas e as relações com Constantinopla. A Treccani descreve o seu reino como uma tentativa de pacificação entre Ostrogodos e Romanos, num país já marcado pela crise económica e social do fim do império. [16]
Nas décadas seguintes, a Itália seria arrastada para novas guerras. A reconquista bizantina de Justiniano, iniciada no século VI, combateu o reino ostrogodo, mas devastou muitas zonas da península. Os Lombardos chegaram em 568, abrindo outra fase de fragmentação política. O fim do império ocidental não entregou, portanto, uma Idade Média já formada: abriu uma longa época em que as formas romanas continuaram a ser usadas, adaptadas e disputadas.
Em The Inheritance of Rome, Chris Wickham insiste na necessidade de olhar para esta herança sem a reduzir a uma simples história de decadência. A Europa entre 400 e 1000 mudou profundamente, mas continuava a viver entre cidades romanas, práticas fiscais, dioceses cristãs, textos latinos, códigos jurídicos e memórias do império. [17] As continuidades não apagam as perdas; mudam, porém, a forma como lemos a passagem da Antiguidade para a Idade Média.
O mundo romano ocidental contraiu-se, perdeu capacidade de comando e foi dividido entre poderes diferentes. Não se dissolveu como uma estátua que cai. Permaneceu nas línguas, nas leis, nas igrejas, nos nomes das cidades, nos rituais políticos e nas pessoas que, durante gerações, continuaram a chamar-se romanas depois do fim do imperador do Ocidente.
Um fim concreto
A «queda de Roma» resiste porque condensa séculos de mudanças numa imagem que se fixa rápido na memória. Peca por excesso de síntese: mete no mesmo saco a cidade de Roma, o Império do Ocidente, a civilização romana, a Itália, a Igreja e todo o Mediterrâneo. Essas realidades não terminaram no mesmo momento, nem todas mudaram ao mesmo ritmo.
A cidade de Roma sofreu saques e perdas, mas não deixou de existir. O Senado continuou a reunir-se durante algum tempo. O latim permaneceu língua de governo, de culto e de cultura escrita. A Igreja tornou-se mais importante na vida urbana. O Império Romano prosseguiu no Oriente. As províncias ocidentais passaram para novas monarquias, muitas das quais conservaram leis, funcionários e símbolos romanos porque não podiam governar sem eles.
Isto não obriga a escolher entre dois relatos extremos: o colapso total ou uma continuidade sem feridas. O século V conheceu destruição, guerra, perda de riqueza, redução das redes comerciais e diminuição da capacidade do Estado. Conheceu também adaptações, colaborações e instituições que continuaram a funcionar. Bryan Ward-Perkins chama a atenção para a dureza material da crise; outros historiadores convidam a observar as continuidades e as transformações regionais. [18]
O ano de 476 foi, portanto, o fim do imperador romano do Ocidente, não a desaparição instantânea de Roma. Em 493, Teodorico entrou em Ravena depois de anos de guerra; em 535 começou a reconquista bizantina; em 568, os Lombardos atravessaram os Alpes. Estas datas recordam até que ponto a crise aberta pela deposição de Rómulo Augústulo continuava em curso. Roma não morreu nesse dia: deixou gradualmente de ser o império ocidental que governara o Mediterrâneo durante séculos.
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